Não me lembro quando foi a última vez em que se discutiu tanto sobre política aqui em BH. Acho que, desde de que me entendo por gente, não vi uma discussão tão generalizada e alguns momentos apaixonado por um dos lados. Lamento apenas o fato de ser o estopim das discussões a completa mediocridade dos candidatos e coligações feitas.
Principalmente no segundo turno, ficamos reféns de dois fogos infernais, de um lado um imbecil populista, que explora uma pseudo caipirice do povo belorizontino, abusando de um sotaque forçadamente colocado. Não conheço sua vida pregressa e acredito que 90% do que se diz dele, muito provavelmente é inventado pela oposição. Porém, votar nele significa dar um cheque para alguém que já se apresenta com uma face falsa. Normalmente nas eleições não deixo de votar num candidato pela sua compleição física, seu sotaque ou pelo seu estilo. Mas Quintão é demais para mim. Enterra minha ideologia numa fossa de um populismo barato, que, nem de longe chega aos pés do populismo Vargas.
De outro lado do inferno, temos um socialista-empresário-bem-sucedido. Isto, algo que na sua origem já soa estranho. Como disse, procuro não votar nas pessoas por suas características pessoas, visto que, para mim vale mais o enfronhamento ideológico e político-partidário. Por isto, já cortei de cara da minha intenção de voto nosso amigo Lacerda. Filho mal parido de Aécio e Pimentel, não conseguindo eu ainda definir dos dois quem é o provedor e quem o amamenta, sei que este coito embora não seja ilegal, é imoral. A oposição é sempre necessária num processo democrático, alimentando um zelo por parte da situação e em ambos o poder deve ser equilibrado. Esta aliança que nos foi enfiada pela nossa aliança, revela um acordo vil, entre os dois maiores poderes nacionais, que poderiam e deveriam se contrapor, para que um vigie o outro. A partir do momento que não existe esta vigilância, o poder reinante, fruto de acordos sabe-se lá de que natureza, manda absoluto. Lacerda, portanto, está descartado ideologicamente de minha opção de voto.
Em quem votarei? Bem, muito provavelmente anularei meu voto, numa demonstração ímpar de uma anti-cidadania de quem prega a cidadania inconteste. Sim, rendo-me à incoerência, para escapar destas algemas chinesas.
Mas e aí? E aí que vou sintetizar toda esta minha choradeira: O reflexo político é o eco de nossa postura política. A apatia e a indiferença anteriores do nosso povo, principalmente da juventude no que diz respeito à política, nos arremessa a um poço político sem fundo, um Tártaro que nos exila politicamente. Vamos nos envolver mais politicamente, participar de ante-mão, cobremos dos nossos políticos eleitos, principalmente no nível municipal. Participemos de sindicatos, associações de bairros e, entendam, ativamente o processo político que nos inserimos.
Por favor, ajudem-me na cidadania das próximas eleições...
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
sábado, 9 de agosto de 2008
“Al Bácara” – A Vaca
Em nome de Allah, O Clemente, O Misericordioso. Com esta exortação normalmente inicia-se todas as suras que compõem o Alcorão, livro sagrado do Islã.
O Alcorão é a palavra revelada de Allah aos homens, segundo a religião islâmica. Foi fruto do registro, por parte de escribas, das revelações recebidas por Maomé, profeta do Islã. Estas revelações foram recebidas em Meca e posteriormente em Medina. Trata-se de versículos, reunidos em sunas, pequenos livros, que tratam de assuntos relacionados à fé islâmica, à Allah, aos costumes e leis.
Examinaremos alguns aspectos de uma destas sunas, a segunda, com o título de “Al Bácara” ou A Vaca, que foi revelada em Medina e possui 286 versículos.
Podemos iniciar esta análise pelo título A Vaca. A palavra aparece no versículo 67:
“E de quando Moisés disse ao seu povo: Deus vos ordena sacrificar uma vaca. Disseram: Zombas, acaso, de nós? Respondeu: Guarda-me Deus de contar-me entre os insipientes!” (2:67)
E é o destaque de uma parte que fala sobre o castigo de desobedecer à Allah. Segundo Samir El Hayek, este versículo remete ao antigo testamento, mais precisamente no livro Deuteronômio:
“Quando na terra que te der o SENHOR, teu Deus, para possuí-la se achar alguém morto, caído no campo, sem que se saiba quem o matou, sairão os teus anciãos e os teus juízes e medirão a distância até às cidades que estiverem em redor do morto. Os anciãos da cidade mais próxima do morto tomarão uma novilha da manada, que não tenha trabalhado, nem puxado com o jugo, e a trarão a um vale de águas correntes, que não foi lavrado, nem semeado; e ali, naquele vale, desnucarão a novilha... Assim, eliminarás a culpa do sangue inocente do meio de ti, pois farás o que é reto aos olhos do SENHOR.” (Dt, 21;1-19)
Esta sura trás passagens que dizem sobre a finalidade de Allah ter enviado o Alcorão, através do Anjo Gabriel, para Maomé. Utilizam-se passagens do antigo e do novo testamento para admoestarem judeus e cristãos sobre o não cumprimento e a negligência perante a palavra de Allah.
As suras estão estruturadas em forma de recomendações e falam de vários aspectos práticos da vida dos crentes. Falam por exemplo de como os homens devem tratar suas mulheres, como se fossem suas sementeiras, para que sejam utilizadas como melhor lhes for conveniente e que devem guardar o período menstrual, quando a mulher estaria impura.
Outra passagem interessante é a que diz respeito ao comércio e à usura. Nascido no meio de um povo comerciante por princípio, o Alcorão censura a prática da usura, enaltecendo, contudo o comércio, como algo digno e que é de Allah.
Neste capítulo o Alcorão também cita dois dos cinco pilares do Islã, a esmola (Zakat) e a oração e volta a legislar sobre leis que já estavam na Bíblia.
O Alcorão é a palavra revelada de Allah aos homens, segundo a religião islâmica. Foi fruto do registro, por parte de escribas, das revelações recebidas por Maomé, profeta do Islã. Estas revelações foram recebidas em Meca e posteriormente em Medina. Trata-se de versículos, reunidos em sunas, pequenos livros, que tratam de assuntos relacionados à fé islâmica, à Allah, aos costumes e leis.
Examinaremos alguns aspectos de uma destas sunas, a segunda, com o título de “Al Bácara” ou A Vaca, que foi revelada em Medina e possui 286 versículos.
Podemos iniciar esta análise pelo título A Vaca. A palavra aparece no versículo 67:
“E de quando Moisés disse ao seu povo: Deus vos ordena sacrificar uma vaca. Disseram: Zombas, acaso, de nós? Respondeu: Guarda-me Deus de contar-me entre os insipientes!” (2:67)
E é o destaque de uma parte que fala sobre o castigo de desobedecer à Allah. Segundo Samir El Hayek, este versículo remete ao antigo testamento, mais precisamente no livro Deuteronômio:
“Quando na terra que te der o SENHOR, teu Deus, para possuí-la se achar alguém morto, caído no campo, sem que se saiba quem o matou, sairão os teus anciãos e os teus juízes e medirão a distância até às cidades que estiverem em redor do morto. Os anciãos da cidade mais próxima do morto tomarão uma novilha da manada, que não tenha trabalhado, nem puxado com o jugo, e a trarão a um vale de águas correntes, que não foi lavrado, nem semeado; e ali, naquele vale, desnucarão a novilha... Assim, eliminarás a culpa do sangue inocente do meio de ti, pois farás o que é reto aos olhos do SENHOR.” (Dt, 21;1-19)
Esta sura trás passagens que dizem sobre a finalidade de Allah ter enviado o Alcorão, através do Anjo Gabriel, para Maomé. Utilizam-se passagens do antigo e do novo testamento para admoestarem judeus e cristãos sobre o não cumprimento e a negligência perante a palavra de Allah.
As suras estão estruturadas em forma de recomendações e falam de vários aspectos práticos da vida dos crentes. Falam por exemplo de como os homens devem tratar suas mulheres, como se fossem suas sementeiras, para que sejam utilizadas como melhor lhes for conveniente e que devem guardar o período menstrual, quando a mulher estaria impura.
Outra passagem interessante é a que diz respeito ao comércio e à usura. Nascido no meio de um povo comerciante por princípio, o Alcorão censura a prática da usura, enaltecendo, contudo o comércio, como algo digno e que é de Allah.
Neste capítulo o Alcorão também cita dois dos cinco pilares do Islã, a esmola (Zakat) e a oração e volta a legislar sobre leis que já estavam na Bíblia.
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sexta-feira, 8 de agosto de 2008
O Calango
Calango é uma lagartixa grande, vive nas pedras. Por ser animal de sangue frio, precisa do calor do Sol, fica quarando horas e horas, só observando o mundo. Eu era um calango. Calma, eu explico...
Nasci em 1970, no bairro São Geraldo, zona leste de BH. Nesta década, era comum calçar as ruas ao invés de se asfaltar. Quando se localizava um veio de pedras de calçamento, logo a prefeitura fazia pedreira, tirava calçamento e cascalho. Numa distância de 300 metros da minha casa tinha uma destas, bum! Todos os dias, ao meio dia, eram vários estrondos de dinamite. Na mesma distância, porém no lado oposto, tinha a pracinha, local mais chique, cheio de casas e ruas asfaltadas. Tinha até casas de dois andares. Eu sonhava em morar numa destas, mas logo tinha que voltar para a pedreira, na rua de terra e um barracão de quatro cômodos, sala, dois quartos e cozinha. Mas, apesar de não morar naquelas casas bonitas, eu era feliz, acho que até mais que eles que moravam no asfalto, pois conseguia brincar de finca e fazer papoto para bolinha de gude e tico-tico fuzilado.
O apelido de calango quem nos deu foi o pessoal da pracinha, pois jogávamos bola contra eles e como nosso time não tinha nome, fomos batizados de Calango Futebol Clube, nome este escrito a mão nas camisas Hering brancas, pela irmã do Luiz Doido. Eles tinham chuteiras e nós a incrível habilidade de jogarmos de pés no chão. Sempre ganhávamos, tanto que alguns de nós normalmente éramos chamados para integrar o time deles quando era disputa entre bairros, nesta ocasião, eles nos emprestavam algumas chuteiras.
Tinha o funk, mas não era como este de hoje em dia. Era James Brown purinho e íamos dançar um Brown na quadra do Firmino. Era, na realidade um forninho, uma quadra fechada, com muita gente. Meu quase irmão, Rogerinho, era o dançarino da região, dançava tal e qual James Brown, a quem tivemos a oportunidade de ver um dia na TV lá de casa, eu e minha turma toda, pois minha casa foi uma das primeiras a ter TV na pedreira. Eu me lembro disto, tinha sete anos, TV preto e branca, mas meu pai comprou um daqueles plásticos multicoloridos que colocávamos na frente do vídeo e alardeávamos aos quatro cantos que tínhamos uma TV colorida, para ver O Homem de Seis Milhões de Dólares e Vila Sésamo. Ficávamos eu, Josequinha, Neném, Waguinho, Lelé, Paulinho, Cidinho e André.
Logo pela manhã o Rogerinho aparecia na porta lá de casa, chamando a mim e a meus três irmãos para vê-lo dançar. Ele pedia um copo de café com leite e um pão com manteiga em troca. Claro que pagávamos, pagamento pequeno pelo espetáculo. Eu não entendia muito bem porque ele não queria tomar café na casa dele com os onze irmãos. Cidinho paparia era do tipo conquistador, dede cedo paquerava todas as meninas da rua, mandava cartas e fazia juras de amor eterno. Beijando ou não as meninas, sempre contava para tudo mundo. Estranhamente elas gostavam disto.
Josequinha e André eram meus melhores amigos, destes que te colocam em todos os tipos de confusão. Lembro-me do dia que tínhamos comprado bombinhas, voltamos colocando latinhas de massa de tomate em cima dos pequenos explosivos acesos. De repente, subia a latinha a alturas astronômicas para nós. A alegria durou muito, até que uma destas latinhas caísse no telhado da casa de um policial, cuja esposa estava grávida. Que falta de paciência a dele, saiu correndo de casa, calças ainda um pouco arriadas, a nos perseguir. Imediatamente, André me deu um empurrão, eu caí na rua e os meus dois companheiros fugiram, dobraram a esquina e sumiram. Eu fiquei, o policial gesticulava e apontava o dedo para minha cara. Olhei para a esquina, fiz a alegria dos meus amigos, que não paravam de chorar de rir, solidários com meu medo.
Mas minha mãe era uma chata, ia cedinho trabalhar, deixando minha avó de plantão para logo me colocar para tomar banho e ir para a escola. Queria ficar com todos os meus amigos, brincando na rua, mas ela insistia. Para piorar, minha mãe ainda me colocou para estudar longe, numa tal escola chamada Barão de Macaúbas. Cheio de gente chata que ficava rindo do meu cabelo e da minha roupa, não sei por que, pois enquanto a deles era comprada nas Casas Rolla, a minha era feita a mão pela Dona Orelina, nossa vizinha. Além do mais, eles ficavam vermelhos no recreio e eu não, era uma grande vantagem.
Com o passar dos anos, fui descobrindo que estudar longe era uma coisa boa, dava para conhecer novos amigos, mas fui ficando longe dos amigos de infância. Quando estava na sexta série, tive um problema na escola, com a chata da professora de matemática, a vassourinha. Apelido dado pelo cabelo sempre desarrumado e da cor de piaçava. Tomei bomba, mas foi até bom, pois no outro ano estudei tanto que passei direto em tudo com uma média de 95 pontos. Resultado: fui para a única sétima série que tinha de manhã, a dos CDF. Éramos eu e um garoto cheio de espinhas e óculos de fundo de garrafas de homens na sala, o resto era mulher, para colocar em ebulição meus hormônios de adolescente.
Meu pedaço ficou estranho de repente: o Rogerinho morreu. Não sabia que morríamos jovens. Ele estava num fliperama, foi morto a tiros, ele e um menino de doze anos. Dizem que foi por causa de droga. Logo depois morreu Neném, nunca souberam quem o matou e nem por quê. Morreu com um cabo de vassoura enfiado e com dois tiros, diziam na rua que era polícia, claro que não acreditei, a Rotam está aí para nos proteger. Um ano depois morreu Paulinho, acidente de moto, era louco também, gostava de fazer gracinhas de bicicletas. Alguns de nós sobrevivemos, eu, André, Josequinha. Cidinho, também, viveu muito, entrou para a polícia, morreu em julho do ano passado, num acidente com a viatura que ele dirigia no bairro Belvedere...
Nasci em 1970, no bairro São Geraldo, zona leste de BH. Nesta década, era comum calçar as ruas ao invés de se asfaltar. Quando se localizava um veio de pedras de calçamento, logo a prefeitura fazia pedreira, tirava calçamento e cascalho. Numa distância de 300 metros da minha casa tinha uma destas, bum! Todos os dias, ao meio dia, eram vários estrondos de dinamite. Na mesma distância, porém no lado oposto, tinha a pracinha, local mais chique, cheio de casas e ruas asfaltadas. Tinha até casas de dois andares. Eu sonhava em morar numa destas, mas logo tinha que voltar para a pedreira, na rua de terra e um barracão de quatro cômodos, sala, dois quartos e cozinha. Mas, apesar de não morar naquelas casas bonitas, eu era feliz, acho que até mais que eles que moravam no asfalto, pois conseguia brincar de finca e fazer papoto para bolinha de gude e tico-tico fuzilado.
O apelido de calango quem nos deu foi o pessoal da pracinha, pois jogávamos bola contra eles e como nosso time não tinha nome, fomos batizados de Calango Futebol Clube, nome este escrito a mão nas camisas Hering brancas, pela irmã do Luiz Doido. Eles tinham chuteiras e nós a incrível habilidade de jogarmos de pés no chão. Sempre ganhávamos, tanto que alguns de nós normalmente éramos chamados para integrar o time deles quando era disputa entre bairros, nesta ocasião, eles nos emprestavam algumas chuteiras.
Tinha o funk, mas não era como este de hoje em dia. Era James Brown purinho e íamos dançar um Brown na quadra do Firmino. Era, na realidade um forninho, uma quadra fechada, com muita gente. Meu quase irmão, Rogerinho, era o dançarino da região, dançava tal e qual James Brown, a quem tivemos a oportunidade de ver um dia na TV lá de casa, eu e minha turma toda, pois minha casa foi uma das primeiras a ter TV na pedreira. Eu me lembro disto, tinha sete anos, TV preto e branca, mas meu pai comprou um daqueles plásticos multicoloridos que colocávamos na frente do vídeo e alardeávamos aos quatro cantos que tínhamos uma TV colorida, para ver O Homem de Seis Milhões de Dólares e Vila Sésamo. Ficávamos eu, Josequinha, Neném, Waguinho, Lelé, Paulinho, Cidinho e André.
Logo pela manhã o Rogerinho aparecia na porta lá de casa, chamando a mim e a meus três irmãos para vê-lo dançar. Ele pedia um copo de café com leite e um pão com manteiga em troca. Claro que pagávamos, pagamento pequeno pelo espetáculo. Eu não entendia muito bem porque ele não queria tomar café na casa dele com os onze irmãos. Cidinho paparia era do tipo conquistador, dede cedo paquerava todas as meninas da rua, mandava cartas e fazia juras de amor eterno. Beijando ou não as meninas, sempre contava para tudo mundo. Estranhamente elas gostavam disto.
Josequinha e André eram meus melhores amigos, destes que te colocam em todos os tipos de confusão. Lembro-me do dia que tínhamos comprado bombinhas, voltamos colocando latinhas de massa de tomate em cima dos pequenos explosivos acesos. De repente, subia a latinha a alturas astronômicas para nós. A alegria durou muito, até que uma destas latinhas caísse no telhado da casa de um policial, cuja esposa estava grávida. Que falta de paciência a dele, saiu correndo de casa, calças ainda um pouco arriadas, a nos perseguir. Imediatamente, André me deu um empurrão, eu caí na rua e os meus dois companheiros fugiram, dobraram a esquina e sumiram. Eu fiquei, o policial gesticulava e apontava o dedo para minha cara. Olhei para a esquina, fiz a alegria dos meus amigos, que não paravam de chorar de rir, solidários com meu medo.
Mas minha mãe era uma chata, ia cedinho trabalhar, deixando minha avó de plantão para logo me colocar para tomar banho e ir para a escola. Queria ficar com todos os meus amigos, brincando na rua, mas ela insistia. Para piorar, minha mãe ainda me colocou para estudar longe, numa tal escola chamada Barão de Macaúbas. Cheio de gente chata que ficava rindo do meu cabelo e da minha roupa, não sei por que, pois enquanto a deles era comprada nas Casas Rolla, a minha era feita a mão pela Dona Orelina, nossa vizinha. Além do mais, eles ficavam vermelhos no recreio e eu não, era uma grande vantagem.
Com o passar dos anos, fui descobrindo que estudar longe era uma coisa boa, dava para conhecer novos amigos, mas fui ficando longe dos amigos de infância. Quando estava na sexta série, tive um problema na escola, com a chata da professora de matemática, a vassourinha. Apelido dado pelo cabelo sempre desarrumado e da cor de piaçava. Tomei bomba, mas foi até bom, pois no outro ano estudei tanto que passei direto em tudo com uma média de 95 pontos. Resultado: fui para a única sétima série que tinha de manhã, a dos CDF. Éramos eu e um garoto cheio de espinhas e óculos de fundo de garrafas de homens na sala, o resto era mulher, para colocar em ebulição meus hormônios de adolescente.
Meu pedaço ficou estranho de repente: o Rogerinho morreu. Não sabia que morríamos jovens. Ele estava num fliperama, foi morto a tiros, ele e um menino de doze anos. Dizem que foi por causa de droga. Logo depois morreu Neném, nunca souberam quem o matou e nem por quê. Morreu com um cabo de vassoura enfiado e com dois tiros, diziam na rua que era polícia, claro que não acreditei, a Rotam está aí para nos proteger. Um ano depois morreu Paulinho, acidente de moto, era louco também, gostava de fazer gracinhas de bicicletas. Alguns de nós sobrevivemos, eu, André, Josequinha. Cidinho, também, viveu muito, entrou para a polícia, morreu em julho do ano passado, num acidente com a viatura que ele dirigia no bairro Belvedere...
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Adeus às ilusões
Vercingetórix nosso grande líder gaulês morreu. Ele, logo ele que construiu em nosso povo um sentimento de igualdade entre os guerreiros, foi derrotado e preso por César, colocado em uma prisão e era obrigado a desfilar em praça pública acorrentado, fazendo os desejos do deus líder romano.
Foi demais para ele, que não sabia ser um não-livre. Antes de ir, porém, deixou as aldeias estruturadas, acreditávamos ainda nos deuses celtas. Plantou em nossos corações, antes de tudo, a certeza de que, nós, chefes de aldeias, deveríamos ser unidos e criar nossos povos com seus ensinamentos.
Mas Roma era implacável. Ser como romano é a única alternativa. Mesmo assim, alguns de nós resistíamos, cultivando a crença numa Roma com traços celtas, língua, costumes e tradições compartilhadas.
Souníx, meu grande irmão, chefe da aldeia ao lado, era um dos mais crentes e ferrenhos defensores desta possível cultura. Porém, apesar de toda a sua fé, acabou caindo, fulminado pelo imperialismo predatório.
Sinto-me só, está frio e vazio, resta migrar para longe, vou para o norte, onde homens bravos lutam por pequenos espaços a cultivar. Lá o desafio é grande, mas pelo menos tenho um desafio, nova crença, nova vida...
Foi demais para ele, que não sabia ser um não-livre. Antes de ir, porém, deixou as aldeias estruturadas, acreditávamos ainda nos deuses celtas. Plantou em nossos corações, antes de tudo, a certeza de que, nós, chefes de aldeias, deveríamos ser unidos e criar nossos povos com seus ensinamentos.
Mas Roma era implacável. Ser como romano é a única alternativa. Mesmo assim, alguns de nós resistíamos, cultivando a crença numa Roma com traços celtas, língua, costumes e tradições compartilhadas.
Souníx, meu grande irmão, chefe da aldeia ao lado, era um dos mais crentes e ferrenhos defensores desta possível cultura. Porém, apesar de toda a sua fé, acabou caindo, fulminado pelo imperialismo predatório.
Sinto-me só, está frio e vazio, resta migrar para longe, vou para o norte, onde homens bravos lutam por pequenos espaços a cultivar. Lá o desafio é grande, mas pelo menos tenho um desafio, nova crença, nova vida...
“Séculos mais tarde o Império Romano do Ocidente ruiu, ou melhor, foi absorvido por uma cultura românica, concretizando o sonho de Vercingetórix e Souníx. Porém, eles e o autor deste fragmento já haviam morrido...”
Texto escrito para dois grandes amigos e exemplos de vida que saíram do meu convívio diário, mas continuam ativos através dos valores e crenças transmitidos à mim.
Alexandre de Oliveira.
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